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Longfic

Rising Eagles

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Capítulo 1

Falta Técnica


A garota puxou o fôlego bem fundo e o reteve em seus pulmões, ainda quentes pela corrida.
— Ok, Anabel. — ela disse a si mesma. — Seja rápida.
Rapidez era algo inato para Anabel Hale. Aos sete meses, realizou sua grande estreia no mundo; aos nove, decidiu sair andando por ele e, aos doze, fez sua primeira pergunta: “por quê?”. Um questionamento vago, com certeza, ainda assim, muito válido. Anabel tinha muitas perguntas dentro de si, no entanto, depois de fugir de seis seguranças do tamanho de geladeiras duplex e disputar o ar com quantidades insalubres de suor e testosterona, ela precisava de respostas. Rápidas, de preferência. Apenas existir naquele espaço úmido e proibido havia se tornado, por si só, um grande desafio.
Felizmente, eram os desafios e as proibições que moviam Anabel e as minhocas falantes que ela tinha no cérebro, às quais ela sempre dava ouvidos, por mais absurdas que fossem as situações em que elas metiam a pobre jornalista — como aquela, por exemplo. Após uma vibrante partida de basquete cujo placar já renderia uma excelente matéria para o The Fourth Quarter, jornal esportivo do qual era colunista, as minhoquinhas tagarelas disseram que seria uma boa, boa não, excelente ideia se enfiar no vestiário dos Rising Eagles atrás de um furo de reportagem.
Tinha tentado ignorar o rumor, tinha mesmo, mas sua resistência não durou mais que oito minutos cronometrados. O boato surgiu pela primeira vez num café despretensioso na redação e estava ganhando força desde então: Choi Minho, a lenda do basquete, planejava sua aposentadoria com uma conta bancária estratosférica e uma sala lotada de troféus. Depois disso, claro, vieram inúmeras especulações, principalmente sobre qual seria a alternativa estratégica para a posição que ele deixaria, cuja aposta unânime era no ala-pivô prodígio de 1,90 de altura, Johnny Suh. Estava tudo se desenhando tão claro quanto um pick and roll perfeitamente executado: um novo titã assumiria, o fenômeno passaria seu legado e o Rising Eagles teria um final feliz. Um final feliz que Anabel Hale publicaria com exclusividade.
— Certo. Se eu fosse uma carta de aposentadoria, onde eu me esconderia?
A moça se moveu pelo vestiário com a precisão de quem já havia invadido lugares demais para se dar ao luxo de errar agora. Passou os olhos pelos armários abertos, pelas toalhas jogadas, pelas garrafas esquecidas no chão, mas nada daquilo importava. Ela manteve o foco, usou um pouquinho de intuição, aguçou o olhar com a precisão de um lance livre e… cesta! Bom, não uma cesta, literalmente, mas uma bolsa, a bolsa encostada sob o banco mais afastado, discreta demais para não chamar atenção. A bolsa com o nome bordado em letras sóbrias e gloriosas.
Choi Minho 99.
Anabel agachou, puxando-a para mais perto, e seu coração bateu num ritmo que não combinava com a quietude momentânea, antecipando para ela o gostinho da vitória. Abriu o zíper com o cuidado de um perito criminal, mexendo na cena sem denunciar sua intromissão, e concluiu que o conteúdo (uma carteira, chaves, um par de munhequeiras e um rolo de bandagem já na metade) era frustrantemente comum.
Exceto pelo caderno fino de capa preta.
— Esperto. — murmurou para o vazio ao redor, pegando o caderno entre os dedos. — É claro que ele não escreveria o anúncio mais chocante do basquete atual no celular. O papel é mais seguro, é à prova de hackers… Só não é à prova de jornalistas malucas.
Anabel se ofendeu com a própria fala.
— Empenhadas. — ela se corrigiu. — Jornalistas empenhadas.
Folheou o caderno rapidamente, encontrando anotações curtas, esquemas de jogo e datas riscadas. Nada explícito, nada definitivo, apenas várias estatísticas e, no meio delas, um nome que aparecia com frequência e dançava pelas páginas. A letra parecia diferente, sem dúvidas ainda era a letra de Minho, só que menos tática e mais sutil. Menos profissional, mais amadora. Menos agressiva, quase… apaixonada?
Dana… — leu.
Quem quer que fosse Dana, parecia assunto para outra matéria. “Possível affair de Choi Minho”? “O motivo da saída do astro das quadras”? Sossegar, constituir família, era por isso que ele estava pensando em se aposentar? Um belo plano, romântico até, ainda assim, Anabel era uma jornalista profissional e precisava de provas, vestígios concretos, fontes seguras. Voltou à bolsa, tateando os compartimentos internos à procura de algo, um envelope, um contrato, qualquer indício físico de uma decisão já tomada.
No entanto, o único indício que ela recebeu foi um conjunto de vozes graves e másculas, alternando entre urros desconexos, gritos de guerra e sons de tapinhas nas costas. Era o deadline. A manada de jogadores machos estava de volta ao seu hábitat natural, sedenta por isotônicos e água gelada em seus músculos cansados. Em breve, o que haveria ali seria um festival de pintos balançando, tendões doloridos e palavras de baixíssimo calão.
— Hora de correr.
Anabel fechou a bolsa como a encontrou, empurrando-a de volta para o lugar exato, até se dar conta de que a única coisa fora do lugar ali era ela.
— Porra. Mas correr pra onde?
As vozes ficaram mais próximas, ecoando pelo vestiário como um aviso tardio. Risadas altas demais, passos pesados demais. Não havia mais silêncio, havia presença, e o cérebro de Anabel foi obrigado a operar no modo de sobrevivência. Varreu o ambiente em busca de uma rota de fuga milagrosa e analisou suas saídas logicamente: portas (todas levavam ao corredor principal), janelas (nenhuma), cortinas (era um vestiário, não um teatro). O tempo avançava sem perdão e as minhoquinhas na cabeça dela sussurraram outra imoralidade.
Os armários.
Fileiras deles, altos, metálicos, alguns abertos, outros fechados. Pequenos cofres de segredos suados, tênis esquecidos e cheiros indescritíveis. Não era uma boa ideia. Não era uma ideia segura. Não era uma ideia higiênica.
Mas era uma ideia.
Anabel se esgueirou até o mais próximo, puxando a portinha e rezando para todos os santos do jornalismo investigativo para que não rangesse. Rangeu um pouco. Ela congelou, descongelou, e enfiou-se dentro do armário com a agilidade de quem já tinha se metido em buracos piores, puxando a porta por dentro no que seria o último barulho que ela poderia fazer ali.
— O que foi isso? — alguém perguntou.
— Meu pau no seu ouvido! — outro alguém respondeu.
“Homens…”, Anabel pensou no seu cubículo de condenação.
O espaço era apertado, escuro e cheirava a desodorante masculino brigando com gel de massagem. Um horror. Pelas frestas, Anabel assistiu vários pares de peitos e bundas passando, além de outras coisas que ela fingiu não ver. Uma cueca caiu sobre seu ombro e ela passou os minutos seguintes tentando se convencer de que aquilo era apenas uma toalha, uma toalha limpinha e inofensiva, e não uma boxer preta que podia ou não ter estado em contato com um pênis enorme.
Sim. Até onde ela tinha visto, os rumores sobre os caras altos eram verdadeiros.
“Só alguns minutos”, uma das minhoquinhas mentais falou. “Espera alguns minutos. Eles vão pro banho, você sai, e aí você corre. Você corre pra caralho. Vira o Usain Bolt”.
Era bem mais simples conceber a ideia do que executá-la, e Anabel começou a desejar uma intervenção divina que a tirasse dali. Tudo bem, não precisava ser divina, precisava apenas ser uma intervenção. Sei lá, um incêndio, um terremoto, qualquer coisa que tivesse que evacuar todo mundo. Até uma queda de energia servia. Um enxame de abelhas. Uma das pragas do Egito. Qualquer coisa.
Qualquer coisa, menos os passos que pararam bem na frente do armário. Menos a sombra que se projetou pela fresta. Menos a toalha que caiu no chão.
— Porra… — o dono da toalha resmungou, abaixando-se.
Naquele buraco abafado, Anabel ainda era capaz de processar muitas informações. O bumbum branco e bonitinho que tomou conta do seu campo de visão, contudo, não era uma delas.
O rapaz se levantou devagar e os ombros largos se esticaram num movimento preguiçoso, banhados por uma pele tão clara e lisa que parecia porcelana líquida. Gotículas de água ainda escorriam pelas costas malhadas, traçando caminhos incertos até encontrarem a curva sinuosa da lombar, onde a toalha branca foi presa com um nó displicente, baixo demais para ser educado e alto demais para ser ignorado.
Anabel esqueceu de respirar.
Ele passou a mão pelos cabelos, empurrando os fios negros e úmidos para trás, e então se virou.
O impacto foi imediato.
Olhos grandes, atentos, quase inocentes à primeira vista, mas afiados nos cantos, pairavam num rosto absurdamente bonito. As linhas suaves contrastavam com uma estrutura firme, uma boca bem desenhada, cílios escuros ainda pesados pela água do banho — tudo nele parecia jovem e perigoso ao mesmo tempo, como uma promessa de caos embrulhada em talento. Anabel reconheceu o jogador antes mesmo de o cérebro se organizar. Reconheceu pela altura, pela postura, pelo que tinha visto em quadra várias vezes, pela facilidade com que ele preenchia qualquer espaço, como se o mundo tivesse sido projetado alguns centímetros a mais só para acomodá-lo…
Reconheceu, num sussurro involuntário, abafado pelo metal do armário e pela própria incredulidade, o nome que escapou de seus lábios:
— Kim Doyoung…
Ao que ele, surpreendentemente, respondeu.
— Eu?
Ele ponderou por um segundo, se certificando de que ele ainda era ele mesmo, e então abriu o armário
— Quem tá aí?
— Ninguém. — Anabel puxou a porta de volta no reflexo. — Quer dizer, claro que tem alguém aqui, mas você pode por favor não contar a ninguém que aqui tem alguém?
Doyoung piscou repetidamente.
— Como é que é?
Mais um ruído enferrujado e a mão do jogador (grande, venosa e, conforme Anabel já havia notado anteriormente, muito tentadora) venceu a dela (pequena, trêmula e com um esmalte preto descascando). Doyoung enfim abriu a porta, revelando a jornalista espremida lá dentro. Ela separou os lábios para esboçar qualquer desculpa esfarrapada, mas foi interrompida por mais um coro de vozes se aproximando.
— Por favor, por favor, não me entrega. — foi tudo que conseguiu dizer. — Eu juro que tenho uma explicação totalmente lógica pra isso, mas fica de bico fechado, por favor!
— Olha-
— Por favor!
Anabel bateu a porta novamente e esperou que Doyoung atendesse seu pedido. Ele, por sua vez, continuou atordoado, movendo o rostinho angelical na mesma expressão que fazia quando se via marcado por dois alas mais altos que ele.
— Que foi, Dodo? — um dos jogadores surgiu na sua frente. — Falando sozinho de novo?
— Hein? — ele usou o corpo imenso para esconder o armário e a ocupante ilegal.
E a pele que ele pressionou contra as frestas tinha cheiro de sabonete de bebê.
— Eu ouvi uma voz de mulher? — um terceiro insinuou.
— É. Era a tua mãe. — Doyoung disparou. — Agora vaza.
Outra enxurrada de xingamentos gratuitos cobriu a saída dos colegas de time e o perfume do sabonete ficou mais intenso quando ele se mexeu para abrir a porta. Anabel soltou um sorriso culpado e Doyoung, encarnando seu olhar mais intimidante de armador, estendeu o braço direito sobre o ferro, arqueando o corpo.
Aquilo sim era envergadura
— Uau. — Anabel assobiou de dentro do armário. — Quem diria que Kim Doyoung tem a boca suja. Não me leve a mal, eu sei que é o dialeto natural de vocês, mas você, com essa cara de bom moço, me pegou desprevenida.
— Falando em ser pega, quem é você?
— Ah, claro, eu. Eu sou… da manutenção. Manutenção de armários, sabe?
Pareceu adequado estender a mão para cumprimentar o jogador formalmente, o problema era que não havia nada de formal na situação. Doyoung estava seminu e Anabel estava, literalmente, segurando a cueca dele.
— Ops. — ela colocou a peça de volta no lugar. — Acho que você vai precisar disso aqui, né?
Talvez.
O tom da resposta foi mais sugestivo que o único filete de água que descia direto pelo umbigo alheio. Na verdade, era a confirmação de uma velha suspeita que Anabel teve quando assistiu a um treino exclusivo, de que o doce Dodo gostava de criar os filhos livres. Cada vez que ele pulava ou fazia uma manobra de arremesso, a coisa quase saía do calção dizendo “oi” para todo mundo — o que era muito irônico uma vez que o próprio Doyoung sofria para falar com os repórteres. Na conferência de imprensa em que foi apresentado, disse apenas as frases que era obrigado a dizer por contrato (três, exatamente nessa ordem: “sou Kim Doyoung”, “sou ala-armador”, “vou jogar com o número 26”) e passou o resto da coletiva com a cara vermelha de quem queria sair fugido.
Anabel estava com o mesmo sentimento.
— Bom, o seu armário aqui tá ótimo, então eu já vou indo…
Meio passo, foi só o que conseguiu avançar antes que Doyoung usasse o outro braço para bloqueá-la e mantê-la encurralada ali. Estava claro que ele não tinha noção do próprio tamanho e que tinha esquecido que a toalha amarrada na cintura lutava para continuar lá. E estava perdendo.
— Você disse que tinha uma explicação totalmente lógica pra isso. — ele enfim liberou Anabel e cruzou os braços. Os olhos dele, no entanto, continuavam prendendo a moça. — Eu tô esperando.
— Olha, eu não deveria estar aqui porque aqui é o vestiário dos meninos. E eu sou uma menina. Uma garotinha. Faço xixi sentada, sabe como é. — ela olhou para cima e encontrou Doyoung estudando o rosto dela. — Devem ter me agendado errado, aí quando vocês chegaram, eu entrei em pânico. Bom, é isso. Agora que está tudo esclarecido-
— Espera aí, eu sempre vejo você no lado esquerdo da quadra. — ele estalou os dedos enfaixados. — Você é da imprensa.
Droga…
— Você tá me confundindo.
— Pra onde você escreve? — ele insistiu. — Baseline? Four Court Pass?
— Manutenção, amigo. Sou só da manutenção. — Anabel começou a andar.
Doyoung foi atrás.
— Foi você que escreveu que minha contratação era um risco?
— Não.
— Foi você que escreveu que eu era jovem demais pra estar na Liga?
— Também não.
Então Anabel sentiu um toque na mão, suave, educado, um pedido sem palavras para que ela parasse de andar e prestasse atenção no deus de marfim atrás dela. As bochechas dele ganharam um pouco de vermelho e um sorriso com dentes demais para uma boquinha tão fofa e redonda apareceu.
— Foi você que escreveu que a única coisa mais bonita que o meu passe era… eu?
Foi. Anabel lembrava até da linha seguinte: “Kim Doyoung arma o jogo como um mago e ainda mantém o cabelo no lugar.”
— Então você leu, né…
— Claro. Era muito bom. E não só porque você disse que eu poderia ser um ator de dorama se não fosse tão brilhante em quadra…
— Anabel Hale, do The Fourth Quarter. — ela se apresentou, vencida. — Mas não se preocupe, tudo que eu vi aqui vai morrer comigo. — a moça o mediu de cima a baixo. — E olha que eu vi bastante coisa.
— Eu sei porque você tá aqui. — Doyoung apertou os olhos. — Minho hyung.
— Sabe de alguma coisa? — Anabel salivou com a possibilidade.
— Sei que aqui não é um lugar seguro pra você, Anabel Hale. — ele apontou por cima do ombro para o pequeno bando de jogadores cochichando e descobrindo a presença dela, dirigindo-se a um deles. — Ei, você! Joga minha bolsa pra cá.
O objeto voou pela cabeça de Anabel e foi parar perfeitamente nas mãos de Doyoung, que abriu num gesto ágil e tirou de lá uma calça de moletom, vestindo-a por baixo da toalha.
Breaking news: Doyoung dispensava mesmo o uso da cueca.
A boxer preta ficou esquecida no armário junto com os últimos neurônios funcionais da moça, os quais colidiram um no outro e viraram fumaça quando o armador esticou o tronco para se enfiar no agasalho azul-marinho que ele pegou em seguida. Doyoung era magro, mas definido, resultado do esforço que o basquete exigia, e mesmo que ele tivesse pouca massa, ela estava distribuída do melhor modo possível. E para o bem das sinapses de Anabel, agora estava também devidamente coberta.
— Eu te acompanho. — ele anunciou. — Os seguranças devem ter um retrato falado de você a essa altura.
— Eles devem ter mais do que isso. Não é o meu primeiro delito…
— Mais um motivo pra eu te proteger, certo? — Doyoung sorriu brando.
O sorriso desmontou Anabel e levou embora a força que ela tinha nas pernas, uma combinação que já seria perigosa por si só, mas que somada ao fato de que o chão do vestiário tinha poças de água espalhadas como num campo minado, transformava-se num anúncio de acidente.
Exatamente o que aconteceu.
O escorregão inevitável terminou com a jornalista caindo e aparando a queda com o antebraço, o que causou uma dor pungente e terrível que ela nunca havia experimentado antes. Ela testou um movimento e se arrependeu, uma pontada aguda avisou que não dava mais para mexer ali, ao passo que um gemido fugiu num som curto e nada elegante.
— Não se mexe. — Doyoung já estava ajoelhado ao lado dela, a expressão leve de segundos atrás substituída por uma de atenção. — E olha pra mim, tá? — ele tomou a carinha dela entre as mãos gigantes, cheias de esparadrapos. — Onde dói?
— Em todos os lugares onde eu preciso trabalhar pra pagar o aluguel. — ela resmungou e o braço esquerdo tremeu quando tentou apoiá-lo no chão. — Mas se eu tiver que escolher só um, é bem aqui.
Ele segurou o antebraço dela com cuidado, os dedos firmes e profissionais demais a tocavam com uma agilidade natural. Aquilo era rotina para Doyoung, gente se machucava perto dele toda hora (ele também machucava a si próprio), por isso ele não se apavorou, mantendo uma serenidade que acabou acalmando a menina. Fora o mico de ter se empanquecado no chão com todos os Rising Eagles de plateia, Anabel não achou que seu desfecho era tão ruim assim; Doyoung, por sua vez, parecia discordar ao franzir o cenho.
— Não tá nada bom. Vou te levar até a nossa fisio.
— Eu tô ótima. — ela mentiu, enquanto a visão piscava em pontinhos brancos. — Tá, ótima não, mas funcional.
— Você caiu no meu vestiário, isso já te tira o direito de opinar. — ele se levantou e a trouxe junto como se ela pesasse só 500 gramas. — Você é responsabilidade minha agora. — e a envolveu pela cintura para ter um ponto de apoio. — Vem. Devagar.
Não restava nada a não ser aceitar. O mundo inclinou um pouco quando Anabel ficou de pé, e o braço protestou com uma fisgada quente, mas Doyoung a amparou pelo cotovelo, guiando-a pelo corredor lateral, longe do burburinho que crescia atrás deles. No caminho borrado pela dor, a jornalista só recuperou a consciência quando eles viraram uma esquina e entraram numa sala clara, organizada, cheirando a álcool e hospital, cheia de macas alinhadas em uma precisão virginiana, elásticos pendurados e bolsas de gelo empilhadas com método.
— Doutora? — Doyoung chamou no corredor. — Tá aí?
— Depende. — houve um barulho de cadeira de rodinhas se arrastando lá dentro quando a mulher respondeu. — Quebrou alguma coisa?
— Eu espero que não… — ele deslizou o indicador pelo braço de Anabel.
Ficou parecendo um carinho, sem querer.
— Só não me diz que ferrou com o joelho de novo, garoto… — a voz foi ficando mais próxima. E mais ameaçadora. — Eu tenho que ir pro meu pilates.
A fisioterapeuta chegou, vestindo um top e uma bermuda de treino que revelavam um colo e pernas morenas. Se não estivesse com uma paçoca no lugar do braço e se lhe restasse alguma presença de espírito, Anabel teria perguntado onde ela tinha comprado o look. Apesar de não estar de jaleco, ela sustentava uma postura clínica, do tipo que media dor antes de ouvir qualquer palavra, e logo avaliou Anabel, que segurava as lágrimas e de nariz vermelho.
— Oi, meu bem. — ela cumprimentou, já buscando um par de luvas e mostrando uma das macas. — Senta aqui, querida.
Doyoung fez careta. “Meu bem”? “Querida”? Desde quando a mulher que quase arrancava a alma dele para fora do corpo na hora dos alongamentos era simpática daquele jeito?
— Por que ela ganha tratamento especial? — ele protestou.
— Porque ela não é um marmanjo que ignora recomendações médicas. — ela o fuzilou. — Faltou a fisioterapia ontem, Kim.
— Eu tava dando um descanso pro meu joelho, você é muito má com ele.
— Se quer carinho, liga pra mamãe. Ou arruma uma namorada.
Anabel falhou em segurar o riso, aí o ombro doeu também. Embora, é claro, houvesse um alívio momentâneo em saber que Doyoung não tinha uma namorada e que isso era de conhecimento geral a ponto de a própria fisio fazer piada.
— Vou tocar em você, ok? — a médica mostrou as palmas enluvadas.
— Agora tem até aviso de consentimento… — Doyoung zombou.
— É sério, eu vou ligar pra sua mãe.
O jogador soltou um “pfff” com desdém. Já tinha levado umas boas cortadas, mas continuava ali, vigiando Anabel com olhares furtivos, disfarçando a preocupação ao brincar com o cordão do moletom e ao se balançar feito um boneco de posto de gasolina em dias de pouco vento. A doutora seguia firme, apalpando o braço de Anabel até apertar num ponto específico que lhe deu uma breve sensação de desmaio.
— Kim. Segura. — ela chamou, séria.
Antes que a fisioterapeuta terminasse o comando, Doyoung já estava no meio do caminho, apoiando as costas de Anabel enquanto ela a examinava. E ele fez a proeza de achar um lugar entre duas costelas que quase fez cócegas.
— Caiu de mau jeito? — foi o palpite profissional.
— Igualzinho a um pudim. — Doyoung respondeu por Anabel.
— Ei! — Anabel voltou a si. — Só pra você saber, suas quedas também não são nenhum espetáculo visual, senhor “não tenho mais cartilagem no meu joelho”.
— Auch! — ele riu perto o suficiente para Anabel sentir o arzinho quente no seu ouvido. — Isso é informação privilegiada, jornalista. Se souberem que tenho um membro comprometido, eu baixo de preço.
— Tem gente querendo comprar você?
Tem gente que pode levar de graça.
Anabel bateu os cílios. As minhoquinhas sussurraram um “acho que ele está flertando com a gente” para o qual ela sacudiria a cabeça se fosse capaz de se mover. Imagina só. Aquilo era efeito da dor e da fisioterapeuta masoquista colocando o braço dela de volta no lugar, isso sim. Imagina!
“Mas, sério. Imagina, vai…” ela pensou.
O problema de Anabel era que a sua imaginação alçava voos muito ousados em curtíssimos espaços de tempo e logo ela se viu com três lindos garotinhos na primeira fila, vestindo camisetas enormes do Rising Eagles e torcendo pelo papai. Nessas horas de delírio cognitivo, quando a própria Wanda Maximoff baixava nela cheia de enredos fictícios, o jeito era mesmo sacudir a cabeça.
— Não mexe. — a médica repreendeu. — Vou ter que ligar pra sua mãe também?
— Desculpa.
— Onde você caiu mesmo?
— No vestiário.
— Alguém empurrou você?
— Ninguém faria isso na minha frente. — Doyoung se meteu outra vez.
— Ah, eu sei. É que é protocolo, eu tenho que perguntar. — a fisioterapeuta falava com Doyoung, mas olhava para Anabel. — Dodo é um cavalheiro à moda antiga, sabe? Se alguém tivesse triscado em você, teriam dois pacientes aqui agora: você e outro com um supercílio aberto.
“Arquétipo protetor”, Anabel concluiu internamente. “O homem certo pra ser o pai dos meus filhos imaginários…”
— Nada de fratura aparente. Provável contusão. Gelo agora, compressão leve, uns dias na tipoia. — ela abriu uma gaveta em busca do acessório. — Quero você de molho, quieta.
— Quietinha, quietinha. — Anabel repetiu, obediente pela primeira vez no dia.
Doyoung respirou aliviado.
— Obrigado, Dana.
O nome pairou no ar antes de se encaixar na cabeça da jornalista. As folhas do caderno de Minho voltaram a passar na sua mente e um arrepio morninho de satisfação percorreu sua coluna.
Dana.
Então era ela.
Capítulo 2

Avaliação Inicial


Volta e meia Dana se perguntava como tinha ido parar ali. E a voz na sua cabeça sempre respondia a mesma coisa: com muito esforço. Tinha se formado em fisioterapia numa boa universidade e feito sua pós em fisioterapia esportiva enquanto estagiava no basquete do Flamengo. Quando alguém a perguntava porque tinha escolhido o basquete, ela sempre respondia que era porque gostava de caras altos, e ria, mas sua fala tinha um pouco de verdade.
Do Flamengo, foi parar em um time universitário dos Estados Unidos, recomendada por um preparador físico que tinha conhecido em uma das viagens do time.
Nos Estados Unidos, fez mais alguns cursos e ouviu que tinha muito potencial para atuar em um grande time, e, mais uma vez, foi recomendada por um preparador para o Rising Eagles, um time de prestígio na Coreia do Sul. Foi aí que surgiu a primeira barreira: o teste que precisava fazer para atuar como fisioterapeuta na Coreia. Teste esse que era em coreano, língua que ela não dominava, mas que correu atrás de dominar.
E então, depois de alguns meses de estudo intenso, tinha aprendido o suficiente para passar no teste e ido parar onde estava: na sala de fisioterapia de um dos maiores times de basquete da atualidade.
Tudo isso antes dos 30. Um feito e tanto.
— Dana… — ouviu um gemido do lado de fora da sua porta e respirou fundo, se preparando para o que encontraria. Então levantou e abriu a porta.
— Não, Lee. É a terceira vez na semana que você não segue minha recomendação de repouso absoluto e aparece aqui. — Dana olhou para cima ao falar. Estava acostumada a levantar o queixo para falar com seus pacientes que não mediam menos de 1,80.
— Eu precisava treinar. — o jogador tentou se defender e entrou na sala, imediatamente se deitando na maca.
— Não precisava. — Dana fechou a porta e caminhou até ele. — O que você quer, Lee? Um atestado por escrito dizendo que você não pode treinar ou vai acabar com o que resta do pulso? A mão. — ela exigiu com a própria mão estendida.
— Promete que não vai doer? — Lee choramingou. E Dana sorriu e assentiu com a cabeça, porque era a única reação possível. Então segurou o pulso e com a outra mão, puxou a palma de Lee para si, um movimento que deveria relaxar um pouco os músculos ali.
O grito de Lee ecoou pelo corredor e provavelmente assustou seus colegas que deveriam estar no vestiário. Dana respirou fundo, sabia o que vinha depois: o capitão entraria pela porta a qualquer momento para defender o pobre jogador que nem deveria ter jogado.
— Fica quieto. — ela pediu quase em um sussurro, mesmo sabendo que não adiantava mais. Já podia ouvir os passos fortes e apressados do lado de fora da sua sala.
— O que aconteceu? — Minho, o jogador mais velho e capitão do Rising Eagles, perguntou, abrindo a porta de repente. Lee aproveitou a distração e puxou de volta a mão que Dana ainda segurava.
— Ela tá tentando me matar, hyung! — o jogador mais novo protestou.
— Se eu estivesse tentando, ele não estaria nem falando. — Dana disse, sem se abalar, e ergueu os olhos para o capitão. Minho quis sorrir, Dana viu o lampejo de um sorriso em seu rosto. Ela tinha esse poder: podia falar algumas atrocidades e as pessoas ao seu redor apenas riam e diziam o quanto ela era engraçada.
Respirando fundo para controlar o sorriso, o capitão se aproximou da maca e avaliou o pulso do jogador que parecia avermelhado.
— Lee, deixa a Dana cuidar disso. — Minho apontou para o pulso de Lee. Não era uma sugestão. Era uma ordem do capitão.
Sem escolha, o jogador apenas estendeu a mão de volta para Dana, que ajustou o pulso com cuidado e pressionou um ponto que fez Lee se contorcer na maca, mas relaxar em seguida.
— Você prometeu que não ia doer, Dana. — ele reclamou.
— Eu nunca prometo o que não posso cumprir, Lee. E, olha, eu não senti nada. Só vergonha pelo seu grito que fez o capitão vir até aqui. — ela arriscou um olhar para Minho e, dessa vez, o encontrou sorrindo.
Ele a deixava um pouco nervosa, tinha que admitir. Minho era um homem com mais 30, alto e com um porte físico que daria inveja em qualquer homem de 20. Tinha uma pele de cor caramelo e os cabelos escuros estavam compridos, quase caindo sobre os olhos, sendo segurados pela faixa do time que ele orgulhosamente sustentava. Era o tipo de Dana: um moreno alto cujo passado era desconhecido (por ela). Tudo o que sabia era que ele amava muito a mãe e respeitava muito o pai, que era técnico de futebol e que quase o conseguiu arrastar para o time dele.
— Ele treinou hoje. — Minho aproveitou o sorriso e confessou o que todos na sala já sabiam.
— Eu sei. — Dana voltou a encarar o pulso tensionado de Lee.
— Ele não devia, né? — Minho constatou para si mesmo. Dana soltou o pulso e pegou a tala na gaveta de suprimentos. Ajustou no pulso de um Lee que seguia reclamando e então encarou Minho.
— Agora ele aprende do jeito difícil. Vocês dois aprendem. — ela quase esboçou um sorriso de satisfação. Lee fez uma careta.
— Capitão… — ele quis choramingar, mas Minho o encarou com uma expressão dura.
— Você ouviu a doutora. — Minho usou uma voz de autoridade que Dana tinha ouvido uma única vez enquanto ele dava uma bronca daquelas no time, tão alta e firme que era possível ouvir da sala de fisioterapia.
— Duas semanas sem treino, garotão. — Dana levantou e foi até a mesa, vasculhar a gaveta atrás da ficha onde anotaria o procedimento no prontuário de Lee. — Se aparecer aqui antes disso, eu mesma te tiro da quadra.
— Duas semanas é muita coisa, Dana. — Lee engoliu seco.
— É isso ou uma cirurgia. O que vai querer? — ela encarou Lee e depois Minho. Minho sustentou o olhar dela por breves segundos e fechou os olhos, respirando fundo.
— Eu cuido disso. Pode deixar.
— Ótimo, capitão. Porque eu não vou repetir. — ela fechou a ficha e a soltou em cima da mesa. — Tá liberado.
— Obrigado, Dana. — Minho assentiu com a cabeça e deu apoio a Lee para que ele se levantasse. Ansiosa para ficar sozinha com suas fichas (querendo se livrar de um jogador chorão), Dana se adiantou e abriu a porta da sala para eles.
— Não tem de quê. — ela esboçou um sorriso enquanto os rapazes cruzavam o portal.
— Ah, Dana. — Minho parou a dois passos dela. “Perto demais”, Dana pensou. — Amanhã você vai conhecer nosso reforço. — o capitão esboçou um sorriso.
— Ele é bom? — Dana ergueu as sobrancelhas e viu Lee abrir um sorriso.
— É o americano, doutora. — Lee sorriu. Dana encarou Minho, esperando uma explicação.
— Coreano, nascido nos Estados Unidos. — o capitão explicou. — Vai te dar trabalho.
— É o que todos vocês fazem aqui. — Dana deu de ombros.
— Ele é diferente. Bom, até amanhã, Dana. — Minho começou a arrastar Lee de volta para o vestiário. Dana ainda segurou a porta aberta depois que eles saíram e Minho se virou uma última vez para lhe olhar. Não sorriu, não disse nada. Apenas a olhou e voltou a seguir seu caminho.
— Ela sempre é assim? — ouviu Lee perguntar ao capitão.
— Quando sabe o que está fazendo… sim. — Minho respondeu.
E Dana sorriu, porque tinha certeza de que sempre sabia o que estava fazendo.
Continua…
Nota da autora
Nós fizemos de novo. Três autoras, três plots e apenas um neurônio. Obrigada por ler (e por acreditar)!
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